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Brasil Ainda é um dos Piores Ambientes para Negócios? Entenda os Desafios para Investidores
Resumo:O Brasil continua a ser um dos piores países do mundo quando se fala em ambiente para negócios, ocupando a 58ª posição entre 69 nações no ranking global de competitividade do Institute for Management Development (IMD), em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC).

Data: 26 de Maio de 2026
O Brasil continua a ser um dos piores países do mundo quando se fala em ambiente para negócios, ocupando a 58ª posição entre 69 nações no ranking global de competitividade do Institute for Management Development (IMD), em parceria com a Fundação Dom Cabral (FDC). Os números são ainda piores quando abertos por segmentos: educação básica (69º) , habilidades linguísticas (69º) , produtividade da força de trabalho (67º) , mão de obra qualificada (68º) e custo de capital (69º) . Em infraestrutura , o país está em 58º lugar. Os vilões são sempre os mesmos: o “manicômio tributário”, a insegurança jurídica, a infraestrutura precária, a burocracia pública e os juros nas alturas. No entanto, novos personagens entraram recentemente nesse enredo e vão tornar o ambiente de negócios ainda mais complexo no próximo governo: as incertezas globais, em proporções inéditas, incluindo a guerra no Irã, as tensões comerciais e os choques inflacionários.
Os Vilões de Sempre: Tributação, Infraestrutura e Burocracia
A complexidade do ambiente de negócios brasileiro é histórica e reflete a falta de reformas estruturais que sustentem o desenvolvimento econômico no longo prazo. O sistema tributário é um dos mais complexos do mundo, consumindo uma quantidade enorme de tempo e recursos das empresas. A infraestrutura precária (portos, estradas, ferrovias, energia) aumenta os custos logísticos e reduz a competitividade. A burocracia pública (licenciamento, regulamentações) atrasa projetos e desestimula investimentos. Os juros elevados (Selic em 15% ao ano) encarecem o crédito e dificultam o financiamento de novos empreendimentos.
O resultado é uma taxa de investimento que terminou o ano de 2025 em 16,8% , muito aquém das necessidades do país. Para efeito de comparação, a China investe cerca de 40% do seu PIB, e a Índia, cerca de 30%. Sem investimento, não há crescimento sustentado, geração de empregos ou aumento da renda per capita.
Os Novos Vilões: Incertezas Globais e Choques Inflacionários
Nos últimos seis anos, o Brasil enfrentou quatro choques importantes, todos com efeito inflacionário: a pandemia de covid-19, a guerra da Ucrânia, o tarifaço de Trump e a guerra no Irã. Como analisa David Kallás, professor de estratégia no Insper, “a instabilidade e a incerteza são novos modelos mundiais e a tendência é de que os investimentos entrem em compasso de espera”. Grandes projetos, que dependem de previsibilidade de longo prazo, são adiados ou cancelados.
A guerra no Irã interrompeu o tráfego no Estreito de Hormuz, elevou os preços do petróleo e pressionou a inflação global. As tensões comerciais entre EUA e China, e o tarifaço de Trump, afetaram as cadeias de suprimento e aumentaram os custos de importação. A União Europeia anunciou mudanças em sua política de mercado de carbono (ETS), afetando setores que estavam investindo na expectativa de regras diferentes. O governo Trump desmontou o IRA (Lei de Redução da Inflação) , cancelando bilhões em subsídios para projetos de energia limpa. “Um monte de gente iniciou projetos de bilhões de dólares e, de repente, entra um novo presidente que cancela tudo”, afirma Jorge Arbache, da Fundação Dom Cabral.
A Falta de Previsibilidade: O Grande Desafio
É exatamente a previsibilidade — ou a falta dela — que tem determinado a postergação de decisões no ambiente de negócios. Como afirma João Mendonça, sócio do escritório Felsberg Associados, “tanto no Brasil quanto no mundo, tudo está mais incerto, mas o importante, quando falamos de eleições no Brasil, é o quanto de previsibilidade vai ser possível alcançar para atrair o investidor”. O Brasil é um país excelente, mas falta previsibilidade básica.
Isso inclui o ambiente legal. De jurisprudências revistas a mudanças em marcos legais e à morosidade de decisões finais, tudo reduz a previsibilidade para que o investidor, sobretudo o estrangeiro, meça seu retorno e tome a decisão de colocar seus recursos no país. A reforma tributária em andamento, por exemplo, ainda não tem definida a alíquota efetiva de tributação, que deve ficar acima de 28%. Não dá para dizer, ainda, que o custo tributário será reduzido ou que a vida das empresas vai ficar mais fácil.
A Unanimidade: Ajuste Fiscal, Seja Quem For o Eleito
A questão tributária impacta diretamente o equilíbrio fiscal, a única unanimidade entre os especialistas: para todos, seja quem for o eleito nas eleições de outubro, será obrigatório resolver a tendência de alta do endividamento público. Sem isso, é impossível baixar os juros, que têm machucado famílias e empresas.
O custo do dinheiro é o denominador comum que une empresas e famílias. O endividamento e a inadimplência podem sufocar – e, em casos extremos, colapsar – o consumo das famílias, componente que responde por cerca de 62% do PIB brasileiro. Ou seja, estamos falando de um risco sistêmico, não de casos isolados.
Um estudo da RK Partners com 382 empresas mostrou que 24% delas não conseguem sequer pagar os juros da própria dívida. “Elas estão se alavancando para sobreviver, num ciclo perigoso”, diz Ricardo Knoepfelmacher. Com as famílias, a situação é ainda pior. Quase metade da população adulta está com o nome sujo e o comprometimento de renda familiar com o pagamento de dívidas chegou a 29,2% , o que deixa margem mínima para qualquer imprevisto.
O Papel do Banco Central e da Selic
O fato de a Selic cair de forma muito gradual (de 15% ao ano) é bom, segundo Ricardo K. “Baixar os juros rápido demais seria trocar um problema por outro: a inflação voltaria, corroendo ainda mais o poder de compra de quem já está no limite”. O que falta é o outro lado da equação: equilíbrio fiscal que dê ao Banco Central (BC) o espaço necessário para reduzir a Selic de forma consistente e sustentável.
Enquanto esse ambiente não se consolida, empresas precisam fazer o dever de casa: venda de ativos, redução de alavancagem e melhora de eficiência de margem. A reforma tributária ajuda no médio prazo, e a inteligência artificial (IA) pode ser uma aliada importante na redução de custos e ganho de produtividade. Mas nenhuma das duas resolve o problema imediato do serviço da dívida.
Oportunidades no Caos: Por Que Investir no Brasil Ainda Pode Fazer Sentido
Apesar do cenário desafiador, o Brasil ainda oferece oportunidades únicas para investidores com visão de longo prazo e tolerância ao risco.
- Neutralidade Geopolítica: O Brasil não está envolvido em grandes conflitos globais e mantém relações comerciais com todos os blocos. Isto é um ativo em um mundo dividido.
- Matriz de Energia Limpa: O Brasil tem uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo (hidrelétricas, eólica, solar), o que atrai investimentos em data centers e indústrias verdes.
- Mercado Interno Gigantesco: Com mais de 200 milhões de habitantes, o Brasil é um dos maiores mercados consumidores do mundo.
- Reforma Tributária (em andamento): Embora ainda incerta, a reforma promete simplificar o sistema tributário no médio prazo.
- Câmbio Depreciado: O real (BRL) desvalorizado frente ao dólar (USD) barateia o custo de aquisição de terras, maquinário e o controle acionário de empresas nacionais por parte de multinacionais.
Conclusão: O Brasil no Compasso de Espera
O Brasil continua a ser um dos piores ambientes para negócios do mundo, mas esta é apenas uma face da moeda. A outra face é a de um país com enorme potencial, que está temporariamente à espera de um choque de previsibilidade e confiança. A eleição presidencial de outubro e o subsequente ajuste fiscal serão cruciais para determinar se o país sairá do compasso de espera e voltará a atrair investimentos em larga escala.
Para o investidor estrangeiro, o momento é de cautela e seletividade. É preciso avaliar setor por setor, empresa por empresa. Para o investidor brasileiro, a recomendação é de diversificação entre renda fixa (atrelada à Selic ou à inflação), renda variável (ações de empresas exportadoras ou com forte poder de mercado) e ativos cambiais (dólar, ouro). A paciência e a gestão de risco continuam a ser as ferramentas mais valiosas para navegar nas águas turbulentas da economia brasileira. O futuro é incerto, mas as oportunidades existem para aqueles que sabem onde procurar.
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